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A Zara está do lado negro da força.Será mesmo?

Este mês nos deparamos com a descisão judicial no qual a grande marca de fast-fashion Zara foi condenada pela Justiça Brasileira e agora se faz presente na lista negra de empresas que escravizam ou desumanizam as condições de trabalho para baratear os custos de produção. Bom, para começar, vale tomar nota algumas informações pertinentes a empresa Zara.

A história da Zara

Fundada pelo espanhol  Amâncio Ortega Gaona começou no mercado da moda aos 14 anos trabalhando como garoto de recados da camisaria La Gala, responsável por vestir a elite da cidade de La Coruña. Passados 13 anos, deu seu primeiro passo como empresário no ramo têxtil e ao lado de sua família, confeccionaram roupões de banho e roupas íntimas femininas. Passando-se  uma década, ele construiu inúmeras  fábricas pela Espanha e exportava para vários países europeus. Já na década de 70, junto com sua mulher Rosalía Mera Goyenechea resolveram ingressar no mercado de varejo abrindo a primeira loja ZARA, um modesto estabelecimento que vendia roupas femininas a preços acessíveis no dia 15 de maio de 1975, na cidade de La Coruña, localizada na província de Galícia, ao norte da Espanha. O nome escolhido inicialmente para o novo negócio seria ZORBA, mas este já estava registrado e ZARA foi adotado como segunda opção.

Hoje a Zara representa uma grande marca internacional que tem uma grande participação em todos os polos de moda mundial, como Nova Iorque, Paris, Milão, Tóquio, passando por São Paulo e não tem sequer um fashionista que não tenha uma peça da marca em seu closet.

Zara sentenciada por trabalho escravo

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A tentativa da Zara de anular na Justiça os autos de infração da fiscalização que resultou na libertação de 15 trabalhadores em condições análogas às de escravos em 2011 fracassou na primeira instância. O juiz Alvaro Emanuel de Oliveira Simões, da 3ª Vara do Trabalho de São Paulo, negou recurso da empresa nesse sentido e cassou uma liminar que impedia a inserção no cadastro de empregadores flagrados mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria de Direitos Humanos, a chamada “lista suja” da escravidão. À decisão, cabe recurso.

Em sua sentença, o magistrado afirma que, como defendido pela Advocacia-Geral da União, a empresa tem sim responsabilidade direta pela situação constatada, critica a tentativa da Zara de caracterizar os costureiros resgatados como empregados da empresa intermediária Aha e classifica a maneira como a terceirização dos trabalhadores foi registrada como “fraude escancarada”.

Da Espanha,  Raúl Estradera, porta-voz da Zara, afirmou à Repórter Brasil que a empresa vai recorrer da sentença. “É mais um passo em um processo judicial que vai ser longo. Com todo respeito à decisão, entendemos que não foram considerados nossos argumentos e que não tivemos oportunidade de nos defender de forma adequada”, afirma, insistindo que a responsabilidade é da empresa intermediária. “Foi essa empresa que realmente cometeu as irregularidades, e obteve o lucro com isso. Eles que deveriam estar sendo punidos. Nós temos tomado ações de responsabilidade social, inclusive colaborando com entidades públicas e do terceiro setor em um esforço para melhorar as condições de trabalho não só nas nossas cadeias produtivas, mas no Brasil em geral.”

Este trecho foi extraído do Blog do Sakamoto, neste link.

Porque o mundo da moda faz isto?

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É um fato incontestável que as grandes magazines de fast-fashion estão dando dor de cabeça às grandes maisons de moda que ditam e criam o creme de la creme da moda. A questão crucial é que a partir da década de 60 a moda passou-se a ser ditada pela rua e pelos jovens, estes com menos dinheiro para gastar fizeram surgir uma avalanche de grandes redes de marcas que produziam roupas mais baratas para atender a nova classe consumidora. A grande dama da moda mundial — mademoiselle Coco Chanel nos idos dos anos de 1960 disse que nunca uma mulher poderia usar jeans ou usar uma saia que mostrasse os joelhos, e então morreu completamente esquecida pelo setor de moda da época, ficando a cargo de seu eterno perfume número 5 a manutenção do emblema Chanel. Foi a grande sacada do gênio da moda Karl Lagerfeld de se utilizar dos grandes signos da marca: bolsa, camélia, tailler e pérolas, trazendo para o liame do desejo das jovens da época. Desde a década de 80 não há marca que crie maior desejo nas mulheres que a Chanel.

Tudo isso teve que ser dito para mostrar que o que o modelo de negocio da Zara atualmente representa na verdade como o ser humano atual vive, um modo completamente rápido e que pouco valoriza o saber fazer. Grandes maisons de moda investem meses de pesquisa para criarem grandes coleções que são verdadeiros arautos de conhecimento. Com isto, as peças ficam caras, mas seus elevados preços se justificam justamente por valorizarem ótimos tecidos, perfeitos caimentos e roupas que dizem algo. A questão da Zara é sua rapidez em “copiar” as coleções das grands maisons, percebendo a movimentação destas e com apenas 15 dias ela consegue “traduzir” e colocar em suas araras do mundo todo suas peças inspiradas.

Isto também explica a tendencia mundial do high-low (que é misturar em seu look peças caras com peças baratas) em que as pessoas investem mais nos acessórios do que nas roupas, logo compra-se um bom sapato de grife e o usa com uma camiseta de 15 dólares.

A ZARA, como tantas outras, estão no mercado para atender esse segmento que hoje domina o cenário mundial já que o prêt-a-porter esta cada dia mais rarefeito e sem motivo para existir. O fast-fashion veio para suprir a necessidade incontrolável das pessoas de serem vistas e aceitas, não importando se aquele casaco seja de cashmére ou 100% poliéster ou como está sendo produzido.

Quando se está de frente com uma situação tão delicada como a da escravidão do trabalho humano não se pode simplesmente focar em apenas uma vertente de pensamento. Você já parou para pensar o porque ou a origem dessa situação? A ZARA é apenas uma das empresas que praticam essa conduta no mercado, para agravar ainda mais, outros ramos de produção de grande escala — como a alimentícia — também praticam este tipo de exploração.

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Para reflexão: Esta situação pode estar sendo criada por você. Pense nisto.

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O que podemos fazer para tentar mudar esta situação?

Consumo consciente. Uma questão que sempre paro para pensar é que devemos consumir menos e com maior qualidade nas peças que compramos. As roupas estão cada vez mais são descartáveis e são deixadas de lado, mas como nunca concordei com essa situação, tenho a plena certeza que devemos investir em peças de excelente qualidade (não digo caras ou de grife) que vão nos acompanhar pela vida. Se você parar para pensar, a industria têxtil é uma das que mais polui o planeta para a produção de jeans ou malharia.

Por fim, creio que atualmente estamos de frente a uma questão de mudança de paradigma. A moda deve tomar novos rumos, pois neste atual cenário estamos fadados ao fracasso. Mas porque?

Primeiro porque a produção criativa de quem realmente se propõe a isso é completamente desgastante, alguns estilistas precisam criar mais de 7  grandes coleções por ano! O mercado da moda é tão voraz que estes mesmos não aguentam. Sempre temos exemplos de estilistas viciados em álcool e drogas, jogando suas vidas na lata do lixo.

Segundo que nos tempos atuais todos devemos buscar soluções para o bem-estar ecológico, logo nosso guarda-roupas devem estar a cada dia mais recheados com boas peças, que terão durabilidade e adaptadas ao nosso estilo de vida.

  • http://soqueriaterum.wordpress.com/ Lucas Azevedo

    Grande problema. Zara, H&M, Forever 21, e até uns grandes nomes do luxo e estilistas renomados. Antes da moda vindo da rua, teve o impacto da revolução industrial, e do pós guerra, quando as roupas começaram a ser produzidas em massa. Os próprios estilistas também contribuíram para isso tudo, já que os alfaiates, artesãos, etc, não colocavam logomarcas ou saiam falando por aí quem eram seus clientes. Era até mesmo deselegante. As pessoas também mantinham seus “fazedores de roupa” escondidos, com medo da demanda aumentar, o preço subir e ele não conseguir mais atender. Tudo isso mudou na era das grifes, dos estilistas, das marcas, e de gritar para o mundo quem é que você está vestindo. Bem complexo!

    Procuro pesquisar sobre onde e como o produto é fabricado. Costumo favorecer marcas transparentes, que deixam claro qual é a filosofia e o processo, assim como a fonte dos materiais usados. As vezes sai mais caro, mas eu não tenho essa necessidade de ter algo para estar na moda, então consigo esperar um pouco e economizar para comprar o produto certo… e até lá as lojas de departamento já trocaram a coleção inteira. Não sou bitolado em comprar pouca coisa, mas sempre que compro procuro me informar.

    É uma boa reflexão. Quando paro para pensar, a maioria das marcas brasileiras são super fechadas. Elas não falam nada sobre métodos de fabricação, origem, etc. Muitas poucas falam. Mas estamos mudando. Os projetos menores que estão aparecendo por aí, já nascem com uma visão mais local, mais aberta. Agora só falta o consumidor valorizar isso.

    Abs, bom texto.

    • Tadeu Soares

      Lucas, fico feliz que tenha gostado do texto! Minha visão da moda é que o importante é estilo próprio e bom senso num closet e, isto está distante de quantidade de roupas desnecessárias. Peças importantes devem ter bom caimento e ótima qualidade. A indústria têxtil degrada em muito o meio ambiente e acho que a visão atual é de um mundo conectado com o todo e com causas que pensem na coletividade. Idéias setoriais e umbiguistas ciaram por terra.

      Um abraço e continue acompanhando nosso site!

  • http://www.jocaweber.com Joca Weber

    Tadeu, parabéns pelo post, simplesmente perfeito. Em minha
    opinião o próprio consumidor é o vilão nesta historia, não quero dizer que sou
    contra as grandes magazines nem coisa do tipo. Mas o consumidor deveria dar mais
    valor as grandes ditadoras de tendência. Uma coleção não se monta da noite para
    o dia, são feitas pesquisas e, mas pesquisas para que tudo de certo. O mundo da
    moda não é para fracos, é para aqueles que estão dispostos a passar noites em
    claro, é para aquele que esta a fim de estudar historia, sociologia,
    comportamento, geografia, matemática, inglês, francês espanhol… Copiar é mole quero ver fazer uma coleção….

  • http://transicaobrasil.blogspot.com.br cristiano

    Boa Tarde

    Em algum momento vai ficar claro que o consumo tal qual conhecemos deve cessar e a transição para tal é dolorosa .

    O mercado de massa ” é ” o problema e quais são as opções de alternativas ? Será que alguem acredita mesmo que podemos criar uma Economia baseada em Recursos por exemplo ? Sua base é a utilização , não a compra em conjunto com o compartilhamento…ok,ok,ok ….pode funcionar mas não para tudo .

    Se você e eu somos únicos a Moda é expressão disso certo? Podemos de fato compartilhar ” minha ” visão com terceiros ?!? E a sua visão , onde fica ?!? Dicas , truques e afins mas a decisão final é pessoal . A vida é pessoal , ninguem a vive por você , certo?!?

    Não vou defender fast-fashions voltadas para resultados , como qualquer outra empresa que joga o jogo . Ao invés disso melhor é propor outras opções de vida .

    Já pensaram em um Bolsa de Mercadorias só com produtos certificados , livres de trabalho escravo ou condições de dano ao meio ambiente ?!?

    Produção customizada ser de fato uma opção ?!? E a distribuição ser de fato possível ?!? E o preço idem ?!?

    Termos um Estado que ” apoia ” tal ordem ?!?

    Essas e outras idéias necessitam de realização e ‘ melhora ‘ para , sim , não perdermos tempo com que Marcas ” fazem para sobreviver ” e lamentar isso quando sabemos , ou não …!