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Lei Rouanet inclui a moda nacional. E agora?

A partir de agora o ramo da Moda passa a contar com subsídios governamentais em virtude da Lei Rouanet. Para quem não viu, segue algumas manchetes que foram publicadas sobre o mesmo tema:

  • Ministério da Cultura aprova R$ 2,8 milhões da Lei Rouanet para desfile de moda em Paris — O Globo
  • Rejeitado por comissão, projeto de Pedro Lourenço foi aprovado após intervenção de Marta Suplicy — O Globo
  • Além de Lourenço, Herchcovitch poderá captar R$ 2,6 milhões para desfiles em São Paulo e Nova York e Ronaldo Fraga R$ 2 milhões para SPFW — O Globo

De acordo com as informações que obtive, formei um opinião e gostaria de compartilhá-la com todos.

Acho de grande valia o imenso recurso destinado à Moda, e estilistas como Pedro Lourenço, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch receberam montantes milionários para seus desfiles aqui e fora do Brasil. Contudo, mais um vez, sinto que as coisas tendem a mostrar apenas o exterior deixando de lado o interior. Então faço uma analogia com uma casa linda em sua fachada e com sérios problemas de infiltração em seu interior.

Creio que na parte criativa somos verdadeiramente excelentes, temos criadores excepcionais, todavia o setor é mal estruturado internamente. Historicamente sabemos que a indústria nacional quebrou na década de 1990 em virtude do não assessoramento governamental e a entrada triunfal, colossal e esmagadora  dos chineses e indianos no mercado nacional. A única vertente do setor que conseguiu se manter a essas adversidades foram as fábricas de jeans.

A invasão chinesa e indiana no mercado têxtil nacional.
A invasão chinesa e indiana no mercado têxtil nacional.
O jeans, um dos poucos a sobreviver.
O jeans, um dos poucos a sobreviver.

Esse riacho é contaminado desde a nascente!

Passado o problema da indústria, criadores de moda tem que importar tecidos e inúmeras matérias primas, e sabemos que no Brasil temos vários tributos, impostos e taxas desde a esfera municipal até a União. Cria-se uma bola de neve que é arremessada diretamente nos consumidores.

Antes de chegar no consumidor, há que se falar na questão trabalhista que é delicada, afinal há inúmeros encargos. Contudo o trabalhador é o último beneficiado.

Quando o consumidor sai às ruas se vê obrigado a adquirir somente fast-fashion, afinal tais empresas por serem enormes, contam  com um imenso investimento e com um adiamantado setor de logística.

O setor de prêt-à-porter (pronto-para-vestir — vide podcast: 4m12s) fica a mercê de clientes fiéis – e  poucos – que valorizam a roupa (arte) e o esforço anormal dos criadores, porém estes clientes contam com uma situação financeira diferente da grande massa.

Chegamos em um outro problema que é a globalização e a consequente aparição do Brasil para o mundo. A classe compradora do Brasil hoje em dia vai aos grandes centros de consumo e contam com uma infinidade de marcas estrangeiras com preços sedutores  (perdemos mais com isso!), afinal nossa divisas evaporam como água na chaleira. E para piorar o cenário macabro soma-se que as marcas estrangeiras aterrissam com uma voracidade de uma águia-de-cabeça-branca nas grandes metrópoles para massacrar com o setor de prêt-à-porter nacional.

Enfim  vivemos a fase da aparência e com certeza as políticas culturais foram seduzidas também por essa euforia, que se traduz na necessidade de ser visto no mundo de qualquer jeito. Vejamos o futuro com esperança, mas com cautela nas expectativas… Como dizem por aí: “É melhor criar gado que expectativa”.